quinta-feira, 27 de março de 2014

“Quase tudo e o seu contrário”

Por muito que subjectivo
Tudo requer um qualificativo
Um oposto, contra negativo ou positivo
Depende do dispositivo da escrita
Para vincar diferentes estados


Seja por nome ou mais por adjectivos
Saídos debaixo de todos os lados
Soltos sem bonança de objectivos

O bom perder-se-ia sem causa
Se não houvesse outras três letras
Que não lhe dessem pausa
Mau seria se não fosse assim

O certo viveria na inquietação da incerteza
Se não lhe fosse mostrada a face do errado
Pobre e só, erraria confuso e desgraçado

A desgraça, se não lhe fosse tirada o prefixo
Nunca saberia o que seria dar um ar de si mesma
Cair na boa e em sua vossa graça
Ficaria vetada a sorte de madraça

O azar achar-se-ia imperador
Suserano, déspota da fortuna
Se não soubesse o quão retemperador
Pode ser a queda em sorte desagarrada
No amor que se oculta numa duna

Até o amor poderia ter o sabor a ódio
Se a sua familiar raiva por vezes não o despertasse
Como um nó górdio que nunca se desatasse
E dele, o doce amor, não nos relembrasse

O sempre para sempre não saberia medir-se
Sem o nunca mais lhe morder o pescoço
Ter-se-ia por eterno em assim sentir-se
Sem aquela oval que se diz caroço
E nos faz por vezes engolir em seco

Molhado seria sempre o sentimento que não provou agrura
Não rachou os lábios no oposto do oposto da secura
Em fruta verde que nunca cai, nem de podre ou madura
E por isso dura, perdura, endura

Tudo isto é vivido muito a sério
Numa vida tão simples dizem
Mas ao mesmo tempo é mistério, não desdizem
Pode ser tudo um caso, barbicacho bicho bicudo
Mas só até que um dia se acabe tudo

Sabedor de quase tudo de algo disto
Quedo e mudo bicho
Sério carrancudo jamais se tomaria como tal
Se não conhecesse a leveza da brincadeira descontraída
Teria só um caminho de regresso sem partida
A outra face do meu rosto
Pão amassado cheio de sal
Sempre Agosto sem sabor em contragosto

Antónimos, pólos, opostos
Negativos e positivos
Por vezes perdidos
Outras mal dispostos
Sem dom de ouvidos
Anulados entre si

O que seria e será deles
Uns sem os outros
Destinados a se entenderem
Juntos ou sem se verem
Ao fim ao cabo de vós
E, também, de mim
Que nem sempre o vejo tão claro
No escuro em que o escrevo assim

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.

Vivi quase sempre no sonho Cedo me omiti da realidade Quando realizei o que não vivi Até para sonhar já era tarde E da não vida que se ...