domingo, 20 de novembro de 2011

"Vigília"

Vou observando, contemplando a graciosidade trazida nos instantes em que tudo em mim inflectiu, em que simplesmente deixei de ser eu e passaram a ser vós. Vou orientando, esboçando coordenadas do meu juízo de bom destino e, a um mesmo tempo, confirmo o norte da bússola interna para não perder o sul. Reescrevo mapas, ajustando linhas de rota, sempre procurando evitar mares tortuosos e manter as velas tensas, mas não demasiado, para que a viagem seja contínua e firme, mas bonacheira. Vou subindo à gávea de quando em vez, sempre que o pressinto necessário, perscrutando blocos de gelo, mesmo os mais ínfimos, até os invisíveis, ou outras naus que vos possam querer afundar, por vossa ilusão de barco amistoso, e todas as costas rochosas que vos anseiem encalhar, em canto dissimulador de rumo certo. Vou capitaneando, orgulhoso de mãos no leme, mas não me tenho dono, a roda também é vossa, é apenas por vós que a faço girar e cruzo. Por ora, vou vislumbrando um pouco mais além, mas a diferença de vistas vai encurtando e, por vezes, vou-vos deixando guiar a viagem, moderadamente, sempre que sinto que vosso pé vergou o degrau anterior que conduz ao posto mais alto do mar. Um dia passar-vos-eis o comando, mas serei sempre passageiro atento, mesmo se silencioso, escutando e ajudando os que liderarão então a jornada. Seguirei admirando dois capitães que comandam seu próprio barco, esperando que muitas vezes queiram partilhar viagem, alternando comando como capitão e almirante, sendo-me indiferente quem é quem, desde que vos veja juntos, unidos sem patente em amizade fraternal. Mas eu serei sempre o barco, pois sua madeira foi talhada de minhas costas, as velas foram tecidas com a minha pele, os remos vieram de meus membros, acudindo, sempre, mesmo se rombos ou exaustos, na simples iminência de falta de ventos, e o leme saiu do meu coração, mas, espantosamente, fê-lo maior, e nunca mais parou de crescer desde então, enchendo infinitamente o porão da nau, pois a carga é tão leve, não pesa sequer, e é a mais preciosa que alguma vez transportei e hei-de transportar.

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