quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Sorrisos"

O sorriso é como nome escolhido para novo ser. As faces que os transportam fazem-nos únicos, tão próprios, apesar de suas semelhanças ou idênticas toponímias de lugares de alma. Há sorrisos de cinismo, insuportáveis, que fluem em muitas ventas, de diferentes nomes, penduradas em corpos que até se empalados manteriam em perpetuidade tal esgar e, mesmo na morte, deles se não desprendem. Outros sorriem por cortesia de supostos berços-de-ouro, mas sem boa formação e bons princípios incutidos, pois o embalo das amas tornou-os em liteiras enferrujadas que pelo hábito da subserviência os tombou na vida apenas para o lado do sorrir por querer mostrar boas maneiras. Existem formas de sorrir, sempre, perante circunstâncias, maleáveis ante gregos e troianos ou, todos outros povos, que tais faces pretendem agradar numa desprezível vivência de espinha borrachosa. Outros sorrisos são encarnação de pura maldade e sadismo. Não são mais do que vómitos de olhos que têm prazer em ver sofrimento alheio e escarnecer das fragilidades doutrem. Estes terão seus pares a sorrir-lhes de modo similar quando fraquejarem, pois também lá morarão um dia, e verão quão impiedosa é a dor trazida pelo esgar que noutros abundantemente projectaram. Mas há outros sorrisos, esses admiráveis. Uns trazem a cor do nervosismo pelo não saber, por ingenuidade ou falta de costume, lidar com situações que remexem bons sentimentos e os demandam para fora quando estes apenas se sabem escondidos, mesmo se a experiência não é novel. Há sorrisos de tristeza, por vezes profunda, mas que, só pelo facto de se desprenderem em tal acabrunhamento, irão florescer em sorrisos de esperança e de alegria. Os de esperança serão contágio para os próprios e seus circundantes, sendo elos de mãos que se unirão em sorrisos de alegria pura. Alegria como a de pai que admira os feitos de seus filhos, mesmo os mais ínfimos, de homem que contempla a cara da mulher que ama, mesmo se esta se lhe dista em proximidade, ou, se em sua presença, ainda que perante ele esteja em silêncio ou, apenas, adormecida, e a que nasce das realizações de amigos do amigo de sangue. Mas há apenas sorrisos que são sorrisos, saem por nada, saindo por tudo, soltam-se, como se sem fundamento, sendo os mais belos, pois não vêm de emoções singulares, mas, ao invés, da convergência de todos os bons sentimentos e emoções. Estes sorrisos dispensam o conhecimento do nome da face que os transporta, pois são, em si mesmo, a definição de pessoa em que qualquer nome, até o menos convencional, sempre assentará como o único que poderia ter.

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