segunda-feira, 26 de setembro de 2016

(Texto originalmente publicado em 28 de Junho de 2012)
Vou escrevendo despido de pena própria
Agarro o fio das palavras nos lamentos alheios
Esboçando versos pelas omissões que vou colhendo
A minha pena está descarnada de plumas
Foram-se cansando e caindo por não valer a pena
Carregar sentimentos de comiseração
Mas mesmo sem pena continuarei a verter sensações
Ainda que o papel sofra punção pelo aguço da escrita
Esgalhada por simples bico do que foi outrora pena
Não tenho pena própria e espero que de mim outros a não tenham
Mas tenho outras penas que não apenas para escrever
Daquelas que sentem quando outros vão penando
Pelas palavras ditas e refugiadas nos actos tomados
Escondidas pelo receio do encargo e do peso
Tenho pena que assim o seja
Mas as minhas costas têm milhas de fardos
Já não curvam e nem curvarão
Ainda que lhes aponham o pesado peso
De sentir em mim todas as penas dos outros

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

(texto originalmente publicado em 27 de Novembro de 2011)
A existência humana, porém nunca toda, pois algumas resistem tenazmente em colocar pé a bordo, outras não sabem apreciar a viagem ou sequer conseguem ter elevação para a conhecer, deixa-se guiar, no seu essencial, em jornada de aspiração ao desígnio de ser feliz. A felicidade não é forçosamente uma utopia, mas é altamente subjectiva e de muito duvidosa definição e atingimento. Da palete que contém todas as cores matizadas por eventual mestre, não só pintor, mas feitor de todas as coisas, cada um dela retira os tons que melhor contrastam e dão brilho ao seu quadro de vida em felicidade. Sejam quais as cores escolhidas, ou cor, pois muitos preferem a  monocromaticidade, a felicidade não deve ser perspectivada como meta, como artista que contempla apenas a obra quando pronta, olvidando o trajecto que lhe permitiu atingir a realização do quadro. Como tal pintor, os que se deixam guiar nesta viagem olhando apenas para a linha de chegada, transportando a obsessão de a cortar vitoriosos, cometem, talvez, o maior dos erros e, sem o saber, vão olhando para o lado ou fechando os olhos às vistas que a viagem se lhes oferece de quando em vez. Ainda que a obra realizada seja prima e o pintor seja consagrado em concurso de arte da galeria da vida, será sempre apenas um ponto, ainda que marcante, que mesmo se constantemente admirada, quando ansiadamente pronta, se torna acto monótono e destinado a não ser duradouro, pois o percurso trilhado pelos que foram pintando a sua vida foi longo e deixou pouco tempo para o acto de contemplação. É no percurso, desde que se esboça o projecto do quadro, se apõem os primeiros traços na tela, se vão cambiando as cores que melhor o possam preencher, que as metas vão surgindo, sendo muitas vezes despercebidos os momentos em que a fita é tocada com o peito. Não é necessário ser o primeiro em toda e cada uma das metas, pois cada um tem o seu ritmo de felicidade, havendo várias corridas em paralelo de que não podemos, por simples impossibilidade física e, mesmo mental, tomar parte. Este percurso é repleto de linhas mal definidas, de pinceladas fora de sítio, de borrões nos tons de felicidade, de estradas ascendentes e descendentes que requerem pausa para descanso, como pintor que pára para lavar os pinceis exaustos e mesclados de cores confusas que tornam o quadro pouco nítido. O início da jornada deve começar pela inscrição na corrida com a preparação e a dotação adequadas, não físicas, mas sentimentais e emocionais, de amor próprio de pintor que olha o quadro como espelho e aprecia o reflexo que se lhe é oferecido. Importa que o pintor seja suficientemente arrogante, mas sem excessos que o levem à oclusão no egocentrismo de querer o quadro só para si, desde que o inicia até à sua conclusão. Os que sabem pintar a vida com os tons que para si são os certos, convidam outros para discutir o projecto, partilhar a dúvida e o erro do traço aposto na tela, pedindo ajuda na correcção e ajudando a corrigir o que por outros é pintado. Os sábios mestres convidam outros a pintar a tela a todas as mãos possíveis, pois o quadro também é para ser visto por outros, desde que começa, incompleto, até que acaba, nunca perfeito, forçosamente. Mas essa partilha não deve deixar que cada mestre duvide da sua capacidade de pintar sozinho, se necessário, os outros não devem ser o cavalete que segura a tela enquanto esta é pintada e, na sua ausência, frustrar o pintor de tal modo levando-o a mudar de arte e a desistir da viagem que lhe estava destinada por falta de suporte angular. Se o quadro for assim pintado, ainda que dele resulte natureza morta, os frutos terão sempre vida e estarão suficientemente maduros, gerando vontade noutros em os colher da tela. Maduros, mas suficientemente resistentes que mesmo aqueles que queiram pisar a obra de arte serão sempre confrontados com fruta salubre imperecível. E mesmo os muitos que, não sabendo, ou querendo nada pintar, e não desejando ser convidados para a galeria dos ofícios onde vários mestres pintores esboçam quadros de vida e lhes poderiam transmitir ensinamento, têm como único desígnio destruir apenas os quadros doutros, seja em esboço ou já acabados, mesmo se os roubassem não saberiam sequer admirá-los ou perceber o que está pintado, vendo apenas tela branca de pleno vazio, E nada mais poderiam fazer senão, vilmente, aliená-los a terceiros nunca percebendo que a troca que fazem é tão, apenas tão, fruto de vista míope que nunca soube o valor intrínseco do que a tela transportava. Valor esse, sem preço.
(Texto publicado originalmente em 15 de Novembro de 2011)
Quando ventos, apenas ventos, se nos oferecem à face, gretando os olhos, gelando os lábios e fazendo-os sangrar, somente sangrar, palavras tristes, acabrunhadas. Quando só chove, de fora e por dentro, e a alma é arrastada pelo turbilhão de redemoinhos de desespero que se inebriam de nuvens negras, apenas tão negras. Quando a estrutura, toda a estrutura, abana, é quebrada, por terramotos, nunca sossegando por receio de réplicas constantes. Quando tudo é colina frígida, mesmo o plano despido de neve, e sempre, sempre, nunca de outra forma, se formam avalanches por simples gota de água gotejada em terreno minado. Quando tudo parece, mesmo tudo, porque doutro modo se não nos oferece, simplesmente perdido rumo a valeta sem fundo. Nada, mesmo nada, nunca nada, chegou ao seu fim. Porque um sopro, um único sopro, ainda se pensado como o último, ou mesmo o final, exalado, ainda que com dor, timidamente começa, sem que o saibamos, a formar furacão que impiedosamente quererá afastar toda, porém nunca toda, intempérie que nos levou à plena, mesmo plena, tão absorvente, descrença de tudo, mas apenas de quase tudo, simplesmente, tão só simplesmente, porque o não sabíamos.
Tive outrora um propósito, sentido
Mas já só tenho em mim desamor, sei-me perdido
Obrigo-me a não ter de amar, pelo futuro
Trazendo-me, somente, fechado num eu escuro

Queria saber ser outra cousa, mesmo fingido
Mas de mim faço-me, eterno, esquecido
E enquanto assim me oculto, perduro
Na solidão das paredes deste invisível muro

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Esperas um dia bom
Tens um bom dia
Esperavas um dia assim-assim
Mas foi um dia bom
Esperaste um dia mau
Contudo tornou-se bom
Bom, talvez não seja bem assim
Mas haverá forma melhor de ser bom para mim?

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Não raras vezes sinto frustração de pedra de isqueiro sem gás
Faísco-me sempre por fora, mas muitas vezes estou vazio por dentro
Não tenho condições de ignição e deixo-me ao invés cozer em lume brando
Acabei de entregar mais cinco minutos da minha vida ao passado
Meramente banais, apenas respirados, repletos de mais nada
Enquanto percorro estas palavras, também elas banais
Que são também, pelo menos literalmente, uma perda de tempo
Outros quantos minutos escorrem-me pelas costas
Engrossando a fileira da história de coisa nenhuma
Desesperando o futuro pela falta marginal de tempo
Escrevo para deixar registo de alguns minutos não apenas respirados
Mas essencialmente refletidos e também, julgo eu, bem pensados
Para quando não tiver boa memória do que fui sendo
Possa, pelo menos, ter viva lembrança do que poderia ter sido
Pois é no presente que melhor se faz e desfaz a história do futuro
O resto é simplesmente passado que se perde, minuto a minuto

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Quando finalmente oferecer viuvez à vida
E da morte fizer minha companheira
Quero ir isento de cerimónias de despedida
Queimando pomposamente o destino à poeira

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quase todos morrem sobrevivendo
Muito poucos sobrevivem morrendo
Uns deixam-se ir, passeando pelo horrendo
Outros dão passeio ao horror que há de vir, sendo

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A média é uma medida mediana que por vezes está na moda. É ainda aritmética ponderada, apesar de também simples, que se move em torno de uma geometria centrada.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Se não te amei por hábito ou costume
Terá sido por mera obrigação?
Porque tolerei tanto azedume
De dizer sim quando sempre te quis dizer não?

Porque fui sempre suplente de mim mesmo
Para ser titular da tua permanente vontade?

É que apenas os filhos que te dei foram lume
Que manteve acesa tão insuportável relação
Foram frutos que ainda hoje fazem ciúme
Aos vinte anos que me deste de desilusão

Mas não importa por agora
Estou felizmente livre e só
E ainda celebro o dia em que me fui embora
Eu sonho pelo buraco das fechaduras e acordo em saguões de mais amplas janelas rasgadas.

Por umas e outras espreito, buscando nelas vistas para o jeito, que perdi, de te alcançar.

Ainda que sonhe pequeno, já só apenas tremo, pelo meu maior pesadelo ser um dia despertar e nele ter deixado sequer de isso sonhar.

E que em portas e janelas trancadas, de chaves perdidas em reposteiros de breu, somente entrem luzes desmaiadas desluzindo o que outrora deixaria de ser sentimento meu.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Carta aberta a todos os ditadores
Hoje escrevo a bem mais do que devia
Excomungo nestas palavras as dores
De povos que, mal querendo, lhes são serventia

Gente que em si não soube mandar
Permitiu em loucura plena submissão
Ao tirano que não souberam parar
E ao poder que tiveram na mão

Aos imperadores da falta de sorriso
Formatadores de falsas uniões
Que abatem tudo e o que for preciso
Em enganoso nome de suas nações

Que por si, apenas por si
Degolam a esperança pueril
Determinando proibição de sonhar
Mantendo-nos no fundo do funil
Filtrando-nos a luz e o ar

A eles, veementemente, lhes digo:

Um dia, num breve segundo
Vocês deixarão de reinar
Todos, cada um
Nem que para isso se revire o mundo
E o poder fique sem chão para caminhar

terça-feira, 2 de agosto de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

Não há nada que contemplemos com maior religiosidade do que o tempo, nem sequer plenipotenciárias divindades. Aquele que rotineiramente nos vai faltando, para fazer o que pensamos querer, o que ansiamos ter ainda por viver, se bem que apenas sobrevivamos a maior parte do tempo, e o que se nos atravessa o corpo, por vezes demasiado soalheiro, quando uns queriam o seu contrário, outras excessivamente tempestuoso, quando outros clamam no seu oposto por maior brandura dos tempos.

Nunca havemos de nos entender com o tempo, discutimo-lo, com e sem tempo, mas acabamos a ele subjugados, temendo-o até. Por isso nos é mais fácil procurar abrigo em falsos deuses e nas muitas invencionices de seus escolásticos, num processo de alienação ancestral, e progressivo, que percorre e percorrerá o tempo, até ao ponto em que dele mesmo se ditará o fim dos tempos.

Eu por mim vou gozando, no entretanto, um dia de sol ateu, ainda que não fosse isso o que pensava querer fazer hoje do meu tempo.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Olhos castanhos de tristeza
Um metro e oitenta de problemas
Cabelo curto de esperança
Na voz um timbre de estranheza
Por ouvir um homem em dilemas
Sem altura para voltar a ser criança

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Foge jogador que te fazem comendador
Para onde?
Inquire o atleta, por isso apenas feito poeta
Para o estrangeiro? Se logo me fazem cavaleiro!
Não será decrépito, tanto remedalhar e banalizar o mérito?

terça-feira, 12 de julho de 2016

Hei de tudo fazer para ter muitas vidas
Mudando de morte enquanto posso
Tornando o luto das despedidas
Renascenças de pleno alvoroço

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Anseio ser como os pássaros que não voam. Deter os meios para alcançar e porém quedar-me na eterna dúvida de como seria se planasse bem alto. Sou gente de vida rasteira, sem poderes de Fénix ou utopias de Ícaro.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Se o arrependimento não matasse
Eu seria o maior imortal
Se o lamento não falasse
Meu silêncio seria total

E se o ter de ser
Por mim passasse
E me dissesse para bem viver
Ordenava-lhe imediatamente que se calasse
Até ao dia em que, mal, não hei de morrer

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Há tanta gente em permanente economia de carácter
Muit'outra em total poupança de virtudes
Consumindo desprezivelmente alheia alma mater
Produzindo modo de vida bruto de solicitudes
Não é importante achares bem ou achares mal, mas antes sim achares sempre. Porque no dia em que deixares de achar muito ou totalmente estarás perdido, completamente.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Estão reunidas as condições
Em busca de soluções
Porém nunca chegam a conclusões
Mas continuam reunidas as condições
Indefinidamente
Sem vez alguma tomarem decisões
Reúnem-se permanentemente
Que pobreza a destas nações
Feita de gente sem condições

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Não reconheço o dom da criação a deuses
Talvez apenas às pedras e à água
Sinto-lhes imerecida pena
Mas não lhes tenho mágoa

Tudo existe por razão absoluta de nada
Todos, apenas, sobrevivem
Querendo porém muito, alguns
Tanto saber porque vivem

Vivem porque tem de ser
Existindo, somente, para morrer
O que há além da raia deste pensamento?
Não vale a pena querer saber
Contudo, como o lamento

Mas o universo
Infinitamente perverso
Não se incomoda em nos dizer
Que nos temos em demasiada conta
Por pensarmos que haverá razão de ser

Expludo cada vez mais nesta convicção
De que não há nada à escuta de ninguém
E se ela se move e ele está em expansão
Tudo se deve à roda da aleatoriedade
Que nos força a existência sem além

Tese por qual invoco e desafio
Um qualquer candidato a deus
A desmentir esta minha triste verdade!