terça-feira, 10 de abril de 2018

A vida fez de mim
Tudo o que pôde
Muito mais do que lhe deixei
Enquanto eu nunca quis,
mas sempre soube,
saber que um dia a deixarei

Penso menos de duas vezes
Nestas duas estrofes,
com e de menosprezo,
e às duas por duas
Sem haver três
Nem dois
Dou comigo,
mais uma vez,
sozinho,
Pois...

Enrolo-me depois,
na mortalha,
desta tentativa falhada,
de poesia desacompanhada

Amuo de costas para a parede
Fazendo-me pele no lençol
E vou para a cama comigo,
mais uma vez,
desaconchegado,
adormecendo em concha
Com a noitidão

sábado, 31 de março de 2018

Triste por natureza
Louco por pouca opção
Alegre sem franqueza
Ingénio sem noção

De fraco bater sem calma
Eis mal assim, mas tudo então
O que bem podia ser minh'alma
Mas, por desprezo, é só coração

Deitado fora dos meus sonhos
Por janelas que nunca rasguei
Vive rasgados e bem medonhos
Pesadelos que sequer mal sonhei

Ritmo disfarçado, genialmente
De alegoria que não se acalma
Bate, contudo, tão loucamente
Por tristeza de bomba sem alma

Eis bem assim
Mas contudo senão
Ser disto apenas
Feito o meu coração

E de resto e no demais
Salvo erro, falha ou defeito
Próprios ou até de meu pais
Se porventura ele tivesse alma
Esta não tardaria a copiar-lhe o jeito...

Mas bate coração
Calmamente, bate, bate, bate
Afinal só para isso foste feito

domingo, 18 de março de 2018

A morte por aqui
Hoje se vos acaba
Abaixo a despedida
O adeus não me é nada
Decreto para sempre vida!

Não me preguem a partida
Só sou familiar da chegada
Nem aceito sermões de saída
Quero o céu de porta fechada
A firma deus está encerrada!

Diabo de mania mundana
Despedirem todos de enfiada
Esta empreitada quer-se insana
Como obra nunca acabada

Que celestial inferno!

Perante entreportas da morte
Entre botão de infeliz sorte
Ou um tímido truz truz
Ficar-me-ei sempre pela entrada
Ninguém me apagará a luz!
E também vos venderei nada!

Pois escuta, jesus
Se bem que não oiças
Eu bem sei
Tens a campaínha sempre avariada

Qualquer coisa minha, do jeito
Entre o coração e a alma
Vá lá, tem calma!
Nunca sairão do meu peito
Nunca serão tua malga!

Passarás uma fome dos diabos
Tu e esse bando d'anjos quiabos
E o mafarrico, esse nabo lá atrás
Mictará infernalmente no penico

Irra satanás!
É assim, e mais nada!
A vida é minha, que cambada!

Assunto encerrado
Caso eternamente fechado
A minha vida hoje foi-vos roubada
E toda a morte fica assim indecretada

Dito, feito e assinada!
Minha Lei,
Também assim promulgada!
Publique-se, para a eternidade...

quinta-feira, 15 de março de 2018

Cuidei mais de mim/para mim/e menos de mim/para os outros/e descobri ser comigo próprio/mais parecido do que me julgava

quarta-feira, 14 de março de 2018

Estou a morrer de frio
Mas não somente
Morro igualmente
Tão mormente
De tanto só

Preso na minha orla
Desapreendo gente
Desprendo friamente
Invisivelmente
Até o ombro do pó

Nem no morrer de sono
Afincadamente
Sequer aí abandono
Pena inconsequente
Letrada num único dó

Solfejo-me na ironia
Mas desacompanhadamente
Orquestro-me num presente
Passado sem companhia

Só, somente só

Pauto-me sem letra
Noto-me sem dó
Acompanhado apenas
Deste persistente gentio
Mas nobre estio deste pó

Já nada a morrer de frio
Mas todo a morrer de sono
e,
contudo,
Ainda mais a morrer de só

segunda-feira, 5 de março de 2018

De mim de todo sempre
Por nada tanto te quis
Recebe mudo perdão
Ainda se me sinto infeliz

Fui-te bem mal vivida
Não vi em ti guarida
Deixaste-me pouco,
A pouco,
Atrás de ti esquecida,
Desprotegida...

Eu que bem quis ser
Mas mal já quase sou
E em breve não mais
Serei sopro de tua vida

No silêncio te emudeço
Nunca porém esqueças
Eu jamais te esqueço

Espero que te mereças
Eu bem me mereço...

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Nunca soube/nunca quis/saber-me feliz

Nunca fui/nunca vim/em busca de mim

Todos dias/sempre segundo/nas honras do mundo

Só fui primeiro/quando me redigi/nas minutas do fim

A vida fez de mim Tudo o que pôde Muito mais do que lhe deixei Enquanto eu nunca quis, mas sempre soube, saber que um dia a deixarei ...