quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Carta aberta a todos os ditadores
Hoje escrevo a bem mais do que devia
Excomungo nestas palavras as dores
De povos que, mal querendo, lhes são serventia

Gente que em si não soube mandar
Permitiu em loucura plena submissão
Ao tirano que não souberam parar
E ao poder que tiveram na mão

Aos imperadores da falta de sorriso
Formatadores de falsas uniões
Que abatem tudo e o que for preciso
Em enganoso nome de suas nações

Que por si, apenas por si
Degolam a esperança pueril
Determinando proibição de sonhar
Mantendo-nos no fundo do funil
Filtrando-nos a luz e o ar

A eles, veementemente, lhes digo:

Um dia, num breve segundo
Vocês deixarão de reinar
Todos, cada um
Nem que para isso se revire o mundo
E o poder fique sem chão para caminhar


terça-feira, 2 de agosto de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

Não há nada que contemplemos com maior religiosidade do que o tempo, nem sequer plenipotenciárias divindades. Aquele que rotineiramente nos vai faltando, para fazer o que pensamos querer, o que ansiamos ter ainda por viver, se bem que apenas sobrevivamos a maior parte do tempo, e o que se nos atravessa o corpo, por vezes demasiado soalheiro, quando uns queriam o seu contrário, outras excessivamente tempestuoso, quando outros clamam no seu oposto por maior brandura dos tempos.

Nunca havemos de nos entender com o tempo, discutimo-lo, com e sem tempo, mas acabamos a ele subjugados, temendo-o até. Por isso nos é mais fácil procurar abrigo em falsos deuses e nas muitas invencionices de seus escolásticos, num processo de alienação ancestral, e progressivo, que percorre e percorrerá o tempo, até ao ponto em que dele mesmo se ditará o fim dos tempos.

Eu por mim vou gozando, no entretanto, um dia de sol ateu, ainda que não fosse isso o que pensava querer fazer hoje do meu tempo.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Olhos castanhos de tristeza
Um metro e oitenta de problemas
Cabelo curto de esperança
Na voz um timbre de estranheza
Por ouvir um homem em dilemas
Sem altura para voltar a ser criança

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Foge jogador que te fazem comendador
Para onde?
Inquire o atleta, por isso apenas feito poeta
Para o estrangeiro? Se logo me fazem cavaleiro!
Não será decrépito, tanto remedalhar e banalizar o mérito?

terça-feira, 12 de julho de 2016

Hei de tudo fazer para ter muitas vidas
Mudando de morte enquanto posso
Tornando o luto das despedidas
Renascenças de pleno alvoroço

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Anseio ser como os pássaros que não voam. Deter os meios para alcançar e porém quedar-me na eterna dúvida de como seria se planasse bem alto. Sou gente de vida rasteira, sem poderes de Fénix ou utopias de Ícaro.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Se o arrependimento não matasse
Eu seria o maior imortal
Se o lamento não falasse
Meu silêncio seria total

E se o ter de ser
Por mim passasse
E me dissesse para bem viver
Ordenava-lhe imediatamente que se calasse
Até ao dia em que, mal, não hei de morrer



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Há tanta gente em permanente economia de carácter
Muit'outra em total poupança de virtudes
Consumindo desprezivelmente alheia alma mater
Produzindo modo de vida bruto de solicitudes
Não é importante achares bem ou achares mal, mas antes sim achares sempre. Porque no dia em que deixares de achar muito ou totalmente estarás perdido, completamente.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Estão reunidas as condições
Em busca de soluções
Porém nunca chegam a conclusões
Mas continuam reunidas as condições
Indefinidamente
Sem vez alguma tomarem decisões
Reúnem-se permanentemente
Que pobreza a destas nações
Feita de gente sem condições

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Não reconheço o dom da criação a deuses
Talvez apenas às pedras e à água
Sinto-lhes imerecida pena
Mas não lhes tenho mágoa

Tudo existe por razão absoluta de nada
Todos, apenas, sobrevivem
Querendo porém muito, alguns
Tanto saber porque vivem

Vivem porque tem de ser
Existindo, somente, para morrer
O que há além da raia deste pensamento?
Não vale a pena querer saber
Contudo, como o lamento

Mas o universo
Infinitamente perverso
Não se incomoda em nos dizer
Que nos temos em demasiada conta
Por pensarmos que haverá razão de ser

Expludo cada vez mais nesta convicção
De que não há nada à escuta de ninguém
E se ela se move e ele está em expansão
Tudo se deve à roda da aleatoriedade
Que nos força a existência sem além

Tese por qual invoco e desafio
Um qualquer candidato a deus
A desmentir esta minha triste verdade!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sinto que deixei de sentir as pessoas morrer. Talvez porque, sentidamente, deixei de verdadeiramente viver. Apenas quando partir hei de deixar de fingir de viver.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

E só mais uma noite
De verão
Em que grilos e sapos
Teimam
Mas ambos acordam
Quem melhor talento tem
Para adormecer o riacho

É só mais uma noite
Qualquer
Em que sozinho me perco
Sozinho me reacho
Entre a intermitência
Desafiante
De um mestre coaxo
E sua eminência
Grilo cantante

E por essa noite vou eu
Sou sempre eu na noitidão
Corrente acima
Ouvinte, não falante
Acorrentado abaixo
Achado a montante e perdido a jusante
Enquanto não vai dormindo o riacho

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Não me dou com pessoas que tenham mentido e que sejam incoerentes, ou seja, não me dou com ninguém, até mesmo comigo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Sou uma rémora de pessoas, aninhada num tubarão sem coração.

Acho que perdi o completo juízo moral de mim próprio. Nada me afeta, mas também nada me completa. Sinto-me um frustrado ladrão de relógios, com todo o tempo do mundo mas com total indiferença em vê-lo evoluir.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Quanta da arrogância
É mera defesa de carácter
Pelo simples medo interior
De exteriorizar ignorância?

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Por vezes ninguém
É melhor que alguém
Estar com
É pior
Que estar sem

Antes plena solidão
Que iludida imensidão

Ter certeza que no fim
Ninguém nos dará falsa mão
Haverá melhor prova de inaptidão?

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"Mas Que Não Faltem Poetas"

Falta ao mundo revolução
Países e povos inquietos
Espíritos de uma só nação
Albergue de todos os manifestos

Falta aos povos Poesia
Como aos reis novo feudo
Exaltações de triste alegria
Forjadas em universo pseudo

Falta à Poesia autores
Gente de outra tinta escrita
Diversa de loas a amores
Sem verso fácil em letra bonita

Faltará sempre alguma coisa
Mas que não faltem Poetas
Pessoas evocados sob loisa
Camões sob concreto
Sophias concretas

Pois um País sem Poetas
É um mundo indescoberto
Sem naus para o futuro
Feitio de gentes quietas
Resignadas a inultrapassável muro

terça-feira, 10 de maio de 2016

Se é para magoar
Não o faças por meio
Magoa mesmo a sério
E vive bem nesse momento feio

Sairás magoado também
Mas, ao menos
Por essa firmeza
Evitas poças de incerteza

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Se já vos perdi
Será porque nunca vos senti?

Se já foste embora
Porque te vejo ainda lá fora?

Se já nada sinto
Porque ainda me minto?

Se já não existo
Porque escrevo ainda isto?

Detesto filmes que começam pelo fim
Recordam-me que nunca fui realizador de mim

terça-feira, 3 de maio de 2016

Vivo de apagar memórias
Desisti de me construir
Esquecendo todas as histórias
Sem esperar nada novo surgir

Navego na barca da mortalidade
Rumo incerto, sem emergir
Carregado de atrofiada idade
Sou porto que não há de vir

Já não me guardo nem estimo
Aceitei tudo como perdido
Sou o pior número primo
Apenas por mim me divido

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O poeta é um imitador
Cópia pervertida de si mesmo
De personalidades e frases alheias
Vive e morre na escrita
Enganado pelos sentimentos que imita
Até daqueles, que dentro dele
Morrem e vivem paredes meias
Por um momento
Imagina o mundo sem guerra
Relembra-te, depois, da tua terra
Onde nasceste, pequenino
Sem conhecer o teu destino
Reencontra-te na alegria
Dos teus pais
Sustenta, se possível
Também
A tua vida nos demais
Nunca te deixes ficar só
A solidão é companhia triste
Nela pouco existe
Apenas a luz do pó

Restabelece perdidos laços
Encontra-te em mil abraços
Faz bem feito o bem
Não te esqueças de ninguém
Não deixes para trás
Nunca
Ninguém
Procura sempre o amor
Não renegues esse doce calor
Dá-o a conhecer aos teus filhos
Nunca o doseies
Não sofras tanto
Não anseies
Serão sempre
Teus filhos
Ainda que um dia
Partam

Ama, namora
Por favor, adora
Não odeies
Nunca o semeies
Fomenta a amizade
Perdoa
Tolera
Por um momento
Os donos da verdade
Sorri ao inimigo
Diz-lhe:
Podes contar comigo
Traz outro contigo
Quero, também
Dele ser amigo

Trabalha com empenho
Faz de ti um mouro
Inconquistado
Mas não guardes tesouro
Faz sim das pessoas
Dos sentimentos
O teu precioso ouro

Por um momento
Imagina tudo isto
Guarda
Tudo isto
Pratica
Tudo isto
A quem não o queira
Declara guerra

Para alegria
De Cristo
Que terá criado
Tudo isto
Assim vais criando
Uma nova terra
Santa
Como se de renascida planta

Nela desenha
Numa simples folha
Uma flor de esperança

Poderá vir a ser um mundo
Mais pequenino
Mas assente em paz
De menino
Em sólida paz de criança